
A Camila se formou em psicologia, especializou em TCC, montou seu consultório em São Paulo e decidiu investir em divulgação digital. Pediu que uma amiga criasse um perfil no Instagram com depoimentos de pacientes satisfeitos, colocou “primeira sessão com desconto” no bio e anunciou “Psicóloga especialista em ansiedade e depressão” no Google. Em três semanas, recebeu uma notificação do CRP.
A Camila não tinha má intenção. Ela simplesmente não sabia o que o Conselho Federal de Psicologia permite e o que proíbe na divulgação de serviços. E esse desconhecimento é muito mais comum do que parece: a maioria das infrações éticas em marketing de psicólogos não vem de descuido, mas de desinformação.
Este artigo existe para preencher essa lacuna. Vamos percorrer as normas que regulam a divulgação profissional de psicólogos no Brasil, com exemplos práticos do que pode e do que não pode em cada canal: Instagram, Google Ads, WhatsApp, site e conteúdo educativo. O objetivo não é assustar, é orientar. Fazer marketing ético é totalmente possível, e profissionais que dominam essas regras têm uma vantagem real sobre quem improvisa.
Antes de falar de canais e estratégias, é importante entender o conjunto de normas que regula a divulgação profissional em psicologia. Não existe uma única resolução que responda a tudo: as regras estão distribuídas em documentos diferentes, e o conjunto deles forma o mapa ético da comunicação na área.
Código de Ética Profissional do Psicólogo (CEPP): Arts. 19, 20 e 38
A base de tudo. Define o que é obrigatório em qualquer divulgação (nome, título, CRP), o que é proibido (usar preço como propaganda, prometer resultados, expor pacientes) e os princípios gerais de conduta pública do profissional.
Nota Técnica CFP 1/2022/SOE/Plenária
O documento mais prático para quem faz marketing digital. Instrui a categoria sobre publicidade e cuidados éticos no uso profissional das redes sociais. Aborda depoimentos, preços, logomarcas, apelidos, fotos, trabalho voluntário e a fronteira entre perfil pessoal e profissional.
Resolução CFP 003/2007 (arts. 53 a 58)
Trata especificamente da publicidade profissional: o que pode constar em anúncios, como títulos e especialidades devem ser referenciados, e a vedação ao uso de diagnóstico ou análise de caso em qualquer forma de publicidade.
Resoluções CFP 011/2000 e 016/2019
Regulam a oferta de produtos e serviços ao público e a publicidade feita por pessoas jurídicas (clínicas e consultórios com CNPJ), que devem incluir o número de inscrição no CRP.
Resolução CFP 022/2023 e Resolução CFP 013/2007
Definem as regras para uso do título de especialista. Só pode usar esse título quem tem o registro de especialidade junto ao CFP.
Ponto importante: mesmo quando a divulgação é feita por uma agência de marketing, designer ou plataforma terceirizada, a responsabilidade ética é do profissional. A Nota Técnica CFP 1/2022 é explícita: cabe ao psicólogo verificar se o conteúdo produzido por terceiros cumpre as diretrizes do Conselho. Desconhecer as regras não exime de penalidade.
Fonte: Nota Técnica CFP 1/2022/SOE/Plenária; CRP-MT Orientação Técnica (jan/2024).
Independente do canal, do formato e do conteúdo, toda divulgação profissional de psicólogo precisa incluir três elementos. Sem eles, a publicação já está em desacordo com o Código de Ética.
Obrigatório em toda divulgação:
Para pessoas jurídicas (clínicas, consultórios com CNPJ), toda publicidade deve conter também o número de inscrição da empresa no CRP.
Fonte: CEPP art. 20; Resolução CFP 003/2007; Nota Técnica CFP 1/2022.
Esses três elementos precisam aparecer de forma legível em posts, anúncios, stories, sites, perfis de redes sociais e qualquer outro material de divulgação. A prática comum de colocar só o primeiro nome e o CRP abreviado no bio do Instagram, por exemplo, está em desacordo com as normas.
O CFP não proíbe fazer marketing. O que as normas proíbem é a mercantilização da psicologia, ou seja, tratar o serviço psicológico como um produto qualquer de consumo, sujeito a promoções, promessas e apelos comerciais.
Publicidade informativa: permitida
Publicidade mercantilista: proibida
Fonte: CEPP arts. 19, 20 e 38; Nota Técnica CFP 1/2022; Resolução CFP 003/2007 arts. 53-58.
O artigo 38 do CEPP e a Nota Técnica CFP 1/2022 são explícitos: o preço não pode ser usado como forma de propaganda. Isso significa que é proibido usar, em qualquer divulgação, termos como:
O profissional pode informar o valor quando perguntado diretamente. O preço pode aparecer em tabelas de convênios firmados com instituições, universidades e faculdades, o que é expressamente permitido. O que não pode é usar o preço como chamariz para atrair pacientes.
A Nota Técnica CFP 1/2022 orienta que depoimentos de pessoas atendidas não sejam usados em publicidade profissional, mesmo com consentimento expresso. A razão não é só ética: o CFP considera que solicitar esse tipo de conteúdo pode interferir negativamente no vínculo terapêutico. Para situações em que há consentimento por escrito, a norma admite a possibilidade mas não recomenda, com atenção especial a crianças, adolescentes e pessoas em situação de vulnerabilidade.
Na prática: aquele formato tão comum nas redes sociais de “print de conversa com o paciente” ou vídeo curto de alguém falando sobre a terapia não é compatível com as normas do CFP, independente de a pessoa ter autorizado.
Esta é uma das áreas que mais gera infração por desconhecimento. O título de “especialista” em psicologia só pode ser usado por profissionais que tenham o registro de especialidade junto ao CFP, conforme as Resoluções 013/2007 e 23/2022.
Quem tem pós-graduação lato sensu em uma área pode dizer “especialista em [área] pela Instituição X”. Não pode dizer apenas “especialista em ansiedade” ou “especialista em TCC” sem a referência à instituição e sem o registro no CFP. E não pode se apresentar como especialista em uma área cujo título não possui.
Permitido. A Nota Técnica CFP 1/2022 prevê expressamente que o uso de logomarca nos perfis de redes sociais é permitido, desde que vinculado ao nome completo ou nome social do profissional e ao número de CRP.
O CFP recomenda que o profissional crie um perfil específico para divulgação de serviços, separado do perfil pessoal. Se usar o perfil pessoal para divulgação profissional, precisa de cuidado para não misturar conteúdo pessoal com conteúdo profissional, e os dados obrigatórios (nome completo, título e CRP) precisam estar visíveis.
| Ação | Permitido? | Observação |
|---|---|---|
| Posts educativos sobre saúde mental | Sim | Conteúdo deve estar alinhado à ciência psicológica e não fazer diagnósticos públicos |
| Divulgar formação, abordagem e público atendido | Sim | Informação obrigatória de nome completo, título e CRP |
| Anunciar palestras, grupos e eventos | Sim | Mesmo com cobrança de ingresso, desde que não haja apelo promocional |
| Reels e vídeos com conteúdo psicoeducativo | Sim | Sem prometer resultados ou simular atendimento |
| Usar logomarca e identidade visual | Sim | Vinculada ao nome completo e CRP |
| Depoimentos de pacientes | Não recomendado | Mesmo com consentimento, o CFP orienta evitar pelo risco de exposição |
| “Primeira sessão grátis” ou descontos | Não | Uso do preço como propaganda é proibido pelo CEPP art. 38 |
| Sorteios e cupons | Não | Proibido expressamente pela Nota Técnica CFP 1/2022 |
| Promessas de resultado | Não | Exemplos proibidos: “supere a ansiedade”, “volte a dormir em X dias” |
| Divulgar diagnósticos ou casos | Não | Mesmo sem identificar o paciente, expor casos é vedado pelo CEPP art. 2º, alínea q |
Fonte: CEPP; Nota Técnica CFP 1/2022; CRP-SC Publicidade e Uso de Redes Sociais na Psicologia, jun/2025.
Além das normas do CFP, psicólogos que anunciam no Google Ads precisam lidar com as políticas da própria plataforma, que desde 2025 impõem restrições adicionais para anúncios de saúde mental.
O Google passou a classificar termos como “psicólogo” e “psiquiatra” como “interesse sensível”, o que reduz a visibilidade de anúncios com essas palavras-chave e pode exigir certificação específica da conta para anunciar na categoria de saúde mental. Isso não é uma proibição total: é uma restrição que exige adaptação de linguagem e estratégia.
Linguagem problemática (CFP + Google)
Linguagem segura (CFP + Google)
Fontes: Grupo KOP Digital; AmigaPraContar; Cloud Market; políticas do Google Ads para saúde, 2025.
Estratégia prática para Google Ads: o foco deve ser em palavras-chave geográficas combinadas com termos de serviço mais amplos, como “psicólogo em [bairro/cidade]”, “terapia online para adultos” ou “atendimento psicológico [cidade]”. Anúncios com foco educativo e acolhedor têm maior aceitação pela plataforma e pelo paciente em potencial. A segmentação por localidade é essencial: pacientes em busca de psicólogo geralmente querem alguém próximo.
O site é o canal com mais liberdade e, ao mesmo tempo, o mais estratégico para construir autoridade. Todas as regras do CFP se aplicam, mas o formato permite ir mais fundo em conteúdo educativo, apresentação da abordagem e informações sobre o processo terapêutico.
O WhatsApp é uma ferramenta de comunicação direta, não de publicidade em massa. As regras do CFP se aplicam da mesma forma, com um ponto de atenção extra: disparos em massa para listas de transmissão podem ser interpretados como publicidade abusiva e violar a LGPD se os destinatários não autorizaram o recebimento.
Dentro das restrições do CFP, a estratégia que mais funciona para psicólogos no ambiente digital é exatamente a que o próprio Código de Ética estimula: produção de conteúdo educativo que dissemina o conhecimento psicológico de forma responsável.
Esse caminho é mais robusto do que anúncios promocionais por uma razão estrutural: quem busca um psicólogo geralmente está em um momento de vulnerabilidade. A decisão de agendar uma consulta raramente acontece por impulso após ver um desconto. Ela acontece depois de semanas ou meses consumindo conteúdo que gerou confiança em determinado profissional.
“As publicações devem respeitar a ética profissional, estar em consonância com a técnica e apresentar conteúdo coeso com a ciência psicológica.” Nota Técnica CFP 1/2022/SOE/Plenária
O que GEO tem a ver com isso: artigos de blog, posts bem estruturados e conteúdo educativo baseado em ciência psicológica são exatamente o tipo de material que ferramentas de inteligência artificial (ChatGPT, Gemini, Perplexity) citam quando alguém pergunta sobre saúde mental. Profissionais que constroem esse tipo de presença digital estão se posicionando não só para o Google, mas para o novo motor de descoberta que é a busca por IA. Fazer marketing ético e fazer marketing inteligente, nesse caso, são a mesma coisa.
Um ponto que muitos psicólogos não sabem: contratar uma agência de marketing não transfere a responsabilidade ética. A Nota Técnica CFP 1/2022 é clara ao dizer que cabe ao profissional verificar se o conteúdo produzido por terceiros está em conformidade com as normas do CFP. O psicólogo pode ser responsabilizado pela publicidade indevida mesmo quando quem a criou foi uma agência.
Isso coloca um critério importante na hora de escolher com quem trabalhar: a agência precisa conhecer as normas do CFP, ou estar disposta a aprender. Verificar peças antes de publicar, questionar quando algo parece inadequado e ter clareza sobre o que pode e o que não pode são parte do processo.
Como a BWL Digital trabalha com psicólogos: antes de criar qualquer conteúdo ou anúncio, mapeamos a formação, a abordagem e o público do profissional. Toda peça publicitária passa por uma checagem de conformidade com o CEPP e a Nota Técnica CFP 1/2022 antes de ir ao ar. Não criamos promessas de resultado, não usamos linguagem diagnóstica em anúncios e não sugerimos estratégias que coloquem o profissional em risco ético. Marketing que não pode ser publicado não tem valor.
A gente marca uma conversa sem compromisso para ouvir sua situação e te ajudar a pensar nos próximos passos dentro das normas do CFP.
Falar com a BWL DigitalSim. O CFP permite divulgar formação, abordagem teórica, público atendido e localização. O Google Ads classifica termos como “psicólogo” e “psiquiatra” como “interesse sensível” desde 2025, o que restringe a segmentação automática. A solução é usar linguagem acolhedora e não diagnóstica, com termos como “apoio psicológico”, “bem-estar emocional” e “terapia online”. Promessas de resultado e termos clínicos específicos são proibidos tanto pelo CFP quanto pelo Google.
O preço pode ser informado quando solicitado diretamente, mas não pode ser usado como propaganda. O CEPP proíbe termos como “preço social”, “desconto”, “primeira sessão gratuita”, “pacote promocional”, “valor acessível” e cupons. A divulgação de convênios com instituições e universidades é permitida. Usar o preço como elemento central de um anúncio configura infração ética.
A Nota Técnica CFP 1/2022 orienta que depoimentos de pacientes não sejam usados em publicidade profissional. Mesmo com consentimento expresso por escrito, o uso não é recomendado pelo risco de exposição da pessoa atendida, especialmente crianças, adolescentes e pessoas em situação de vulnerabilidade. O CFP também considera que solicitar depoimentos pode interferir negativamente no vínculo terapêutico.
Conforme o artigo 20 do CEPP, toda divulgação profissional deve conter: nome completo (ou nome social), título “psicólogo” ou “psicóloga”, e número de CRP com indicação da jurisdição (ex: CRP-06/123456). Abreviações ou omissões de sobrenome não são permitidas. Para pessoas jurídicas, o número de inscrição no CRP também é obrigatório em toda publicidade.
Só pode usar o título de “especialista” sem qualificação adicional quem possui o registro de especialidade junto ao CFP, conforme as Resoluções 013/2007 e 23/2022. Quem tem pós-graduação lato sensu pode usar “especialista em [área] pela Instituição X”, com a referência à instituição. Usar “especialista em ansiedade” ou “especialista em TCC” sem o registro de especialidade no CFP é infração ética.
Sim. A Nota Técnica CFP 1/2022 estabelece que cabe ao profissional verificar se o conteúdo produzido por agências, designers ou plataformas terceirizadas está em conformidade com as normas do CFP. Desconhecer as regras não exime de responsabilidade. Por isso, trabalhar com uma agência que conhece as normas específicas da psicologia faz diferença real na proteção do profissional.
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